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25 de Junho de 2021
2º Grau
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Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro
mês passado
Detalhes da Jurisprudência
Órgão Julgador
VIGÉSIMA SEXTA CÂMARA CÍVEL
Partes
AUTOR: JOÃO BEZERRA DO NASCIMENTO, RÉU: INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL INSS, PROCURADOR FEDERAL: GUIDO ARRIEN DUARTE
Publicação
14/05/2021
Julgamento
13 de Maio de 2021
Relator
Des(a). SANDRA SANTARÉM CARDINALI
Documentos anexos
Inteiro TeorTJ-RJ_APL_00641432920198190001_4973e.pdf
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Inteiro Teor

VIGÉSIMA SEXTA CÂMARA CÍVEL

APELAÇÃO CÍVEL Nº 0064143-29.2019.8.19.0001

APELANTE: JOÃO BEZERRA DO NASCIMENTO

APELADO: INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL- INSS

RELATORA: DES. SANDRA SANTARÉM CARDINALI

APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO PREVIDENCIÁRIO. PRETENSÃO DE RECEBIMENTO DE AUXÍLIO-ACIDENTE, COM FUNDAMENTO NO ARITGO 86 DA LEI Nº 8.213-91. DEMANDANTE QUE SOFREU ACIDENTE DE TRABALHO NO INTERIOR DO ESTABELECIMENTO COMERCIAL ONDE EXERCE A FUNÇÃO DE PADEIRO, OCASIÃO EM QUE TEVE O DEDO MÉDIO DA MÃO DIREITA (DOMINANTE) PRENSADO NA MÁQUINA, O QUE RESULTOU NA AMPUTAÇÃO DA FALANGE DISTAL, TENDO PERMANECIDO EM BENEFÍCIO ACIDENTÁRIO DE 10/06/2017 A 30/10/2017, OCASIÃO EM QUE RECEBEU ALTA PARA RETORNAR AO TRABALHO. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA, AO FUNDAMENTO DE QUE A PROVA PERICIAL INDICOU AUSÊNCIA DE INCAPACIDADE PARA EXERCÍCIO DAS FUNÇÕES LABORATIVAS. RECURSO EXCLUSIVO DO AUTOR, REITERANDO A TESE INICIAL, DE QUE O SEGURADO EXERCE ATIVIDADE MANUAL E ANTE GRAU MÍNIMO DE INCAPACIDADE AFERIDO OU VERIFICAÇÃO DE ESFORÇO MAIOR PARA DESEMPENHO DO LABOR JÁ É POSSÍVEL A CONCESSÃO DO BENEFÍCIO E PUGNANDO PELA ANULAÇÃO DA SENTENÇA POR CERCEAMENTO DE DEFESA, PARA QUE SEJA CONVERTIDO O JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA, DETERMINANDO-SE A PERÍCIA DE LOCAL DE TRABALHO E A INTIMAÇÃO DA RÉ PARA APRESENTAÇÃO DE TODOS OS LAUDOS MÉDICOS REFERENTES ÀS PERÍCIAS ADMINISTRATIVAS. CONCESSÃOD DO BENEFÍCIO ACIDENTÁRIO QUE EXIGE A COMPROVAÇÃO DE TRÊS REQUISITOS: A EXISTÊNCIA DE UMA LESÃO; QUE ESTA LESÃO TENHA DECORRIDO OU TENHA SIDO AGRAVADA PELO EXERCÍCIO DO TRABALHO, E QUE, UMA VEZ CONSOLIDADA TAL LESÃO, DELA TENHA DECORRIDO INCAPACIDADE LABORATIVA, REDUÇÃO DE TAL CAPACIDADE OU MAIOR ESFORÇO PARA O EXERCÍCIO DO TRABALHO. PROVA PERICIAL PRODUZIDA QUE CONCLUIU QUE “(...) O PERICIANDO APRESENTOU LESÃO QUE GUARDA NEXO COM A MECÂNICA DO ACIDENTE DE TRABALHO NARRADO NA INICIAL. ESTA LESÃO FOI ADEQUADAMENTE TRATADA E ENCONTRA-SE CURADA, SEM DEIXAR SEQUELAS INCAPACITANTES. ATUALMENTE A BIOMECÂNICA DA MÃO DO PERICIANDO É COMPATÍVEL COM A SUA FUNÇÃO (...)”. TENDO O EXPERT PRESTADO POSTERIORMENTE ESCLARECIMENTOS NO SENTIDO DE QUE AS ATIVIDADES DO PERICIANDO FORAM DISCRIMINADAS NO INDEX.138; QUE AS QUEIXAS TRAZIDAS PELO SEGURADO NÃO SE IMPÕEM AOS RESULTADOS DO EXAME CLÍNICO; QUE NÃO HÁ MAIOR EMPREGO DE ENERGIA PARA O EXERCÍCIO DO TRABALHO HABITUAL, POIS A BIOMECÂNICA DA MÃO DO PERICIANDO ESTÁ MANTIDA PARA O

TIPO DE ATIVIDADE QUE EXERCE. AUSÊNCIA DO ALEGADO CERCEAMENTO DE DEFESA, UMA VEZ QUE A JUNTADA DOS LAUDOS MÉDICOS REALIZADOS ADMINISTRATIVAMENTE NÃO REVELARIA CAPAZ DE MODIFICAR A SORTE DO JULGADO, UMA VEZ QUE O BENEFÍCIO ORA PLEITEADO PELO AUTOR FOI NEGADO ADMINISTRATIVAMENTE, TENDO SIDO O SEGURADO CONSIDERADO APTO PARA O TRABALHO, E TAMPOUCO SE VISLUMBRA, ANTE AS ASSERTIVAS CONCLUSÕES TRAZIDAS PELO EXPERT, QUE A REAVALIAÇÃO DO SEGURADO NO SEU AMBIENTE DE TRABALHO PUDESSE IMPLICAR EM MODIFICAÇÃO DAS CONCLUSÕES EXARADAS PELO PERITO. TENDO RESTADO DEMONSTRADO QUE O AUTOR NÃO PERDEU A SUA CAPACIDADE DE TRABALHO EM RAZÃO DA LESÃO DECORRENTE DO ACIDENTE DE TRABALHO, E INEXISTINDO INDICATIVO DE QUE O SEGURADO NECESSITE EMPREGAR ESFORÇO ADICIONAL PARA O EXERCÍCIO DO LABOR, FORÇOSO RECONHECER A INEXISTÊNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS EXIGIDOS PARA CONCESSÃO DA INDENIZAÇÃO ACIDENTÁRIA, IMPONDO-SE A MANUTENÇÃO DA SENTENÇA. PRECEDENTE. RECURSO DESPROVIDO.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos da apelação cível de referência, em que constam como partes as acima indicadas, ACORDAM os Desembargadores da Vigésima Sexta Câmara Cível, por unanimidade, em NEGAR PROVIMENTO ao recurso, nos termos do voto da Relatora.

RELATÓRIO

Trata-se de apelação cível interposta por JOÃO BEZERRA DO NASCIMENTO contra a sentença proferida pela Exma. Juíza Anna Eliza Duarte Diab Jorge, da 22ª Vara Cível da Capital que, nos autos da ação acidentária, movida pelo apelante em face do INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL - INSS, julgou improcedente o pedido, nos seguintes termos:

“Trata-se de ação acidentária, ajuizada por JOÃO BEZERRA DO NASCIMENTO em face do INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL -INSS, já qualificados, objetivando a concessão do auxílio-acidente. Alegou que é segurado da autarquia ré e empregado da empresa PANIFICAÇÃO E CONFEITARIA IMPERATO LTDA., e que, no dia 09/06/2017, enquanto exercia a função de padeiro junto ao seu empregador, sofreu um acidente de trabalho, que acarretou a perda da falange distal do dedo médio da mão direita. Destacou que permaneceu em gozo do benefício de auxílio-doença acidentário nº 619.107.951-0 (espécie 91) no período compreendido entre 10/06/2017 e 30/09/2017. Alegou, contudo, que a autarquia ré cessou o benefício e lhe concedeu alta médica previdenciária, não obstante ser portador de incapacidade residual, decorrente do

acidente de trabalho acima relatado, fazendo jus, portanto, ao benefício de auxílio-acidente. A inicial veio acompanhada dos documentos de fls. 10/30. Às fls. 33, decisão que deferiu a gratuidade de justiça e determinou a realização de perícia médica e a citação da autarquia ré. O Réu ofereceu contestação às fls. 61/68, pugnando pela improcedência do pedido, face à ausência de comprovação da incapacidade laborativa acidentária, sendo certo que o benefício de auxílio-doença foi cessado após a realização de perícia médica, que concluiu que não persistia a incapacidade laborativa temporária que motivou a sua concessão. Laudo Pericial Médico às fls. 111/124, acerca do qual se manifestou o Autor às fls. 136/151, bem como o Réu às fls. 155. Esclarecimentos prestados pelo sr. Perito às fls. 170/175, acerca dos quais se manifestou o Réu às fls. 188, bem como o Autor às fls. 203/216. O Ministério Público deixou de intervir no feito, conforme fls. 198/200. Os autos vieram conclusos. É o relatório. Decido. Pretende o Autor a concessão do benefício auxílio-acidente, pelos fatos explicitados na inicial. Impõe-se o julgamento do feito no estado em que se encontra, sendo certo que o laudo pericial de fls. 111/124 é conclusivo, tornando dispensáveis quaisquer outros esclarecimentos, além daqueles já prestados às fls. 170/175. O fato constitutivo do direito do Autor é a redução da capacidade para o labor decorrente da lesão informada na inicial, o que, existindo, gera o direito à percepção do benefício. O auxílio-acidente, que possui natureza exclusivamente indenizatória, tem como escopo ressarcir o segurado, em virtude de acidente que lhe provoque a redução da capacidade laborativa. Dispõe a Lei nº 8.213/91, com a alteração dada pela Lei nº 9.528/97, em seu art. 86: ´Art. 86. O auxílio-acidente será concedido, como indenização, ao segurado quando, após consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza, resultarem sequelas que impliquem redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia.´ A prova pericial realizada às fls. 111/124, única capaz de indicar a possibilidade ou não de lesão, constatou que o Autor, em virtude do acidente de trabalho narrado na inicial, sofreu a perda da falange distal do dedo médio da mão direita, sendo certo que a lesão foi adequadamente tratada e encontra-se curada. Concluiu o expert que a biomecânica da mão do obreiro é compatível com a sua função, não tendo diminuída a sua capacidade laboral. Vale salientar que o Autor permanece laborando na mesma empresa e desempenha a mesma função que desempenhava quando do acidente, qual seja, padeiro. Logo, considerando que não há incapacidade, nem qualquer restrição ao desempenho da atividade laboral, não faz jus ao benefício pretendido. A impugnação ao laudo apresentada pelo Autor não merece prosperar. O perito é auxiliar do Juízo e suas conclusões estão sempre mais equidistantes dos interesses de cada um dos litigantes, caso em que devem ser prestigiadas à falta de elementos seguros em contrário. Ademais, o laudo pericial médico, além de conclusivo, revestiu-se de boa técnica, mostrando-se dispensável a perícia in loco na hipótese, eis que o nexo causal não é controverso. Impõe-se, por conseguinte, a improcedência do pedido. Isto posto, JULGO IMPROCEDENTE O PEDIDO e, em consequência, extinto o processo, na forma do art. 487, inciso I, do CPC. Condeno o Autor ao pagamento de custas e honorários advocatícios, que fixo em 10%

sobre o valor da causa, na forma dos arts. 82, § 2º e 85, do CPC, observado o disposto no art. 98, § 3º do CPC, face à gratuidade de justiça deferida. Ante a manifestação de fls. 198/200, AO CARTÓRIO PARA EXCLUIR A INTERVENÇÃO DO MP NO FEITO. Certificado o trânsito em julgado, na forma do art. 229-A, § 1º, inciso I, da Consolidação Normativa da Corregedoria Geral de Justiça, acrescentado pelo Provimento nº 20/2013, ficam as partes, desde logo, intimadas de que o processo será remetido à Central de Arquivamento. Certificada, ainda, a insubsistência de custas, dê-se baixa e arquive-se. P. R. I.”.

Apela o autor (index. 252), repisando a tese inicial de que faz jus ao auxílio-acidente, por ter restado incontroversa a lesão sofrida no desempenho de sua atividade profissional, consistente na amputação traumática da falange distal do dedo médio da mão direita (lado dominante). Argumentou que a sentença é nula, pois houve cerceamento de defesa, uma vez que os esclarecimentos prestados pelo expert na ocasião da impugnação do laudo pericial se mostraram insuficientes, não tendo sido descritas as funções exercidas pelo demandante; que a função desempenhada pelo autor lhe exige força de pegada plena e a execução dos movimentos plenos das mãos é essencial para a atividade de padeiro; que a sentença dispensou a realização de vistoria no local de trabalho do apelante, o que evidenciaria o dispêndio de maior energia por este e a limitação de movimentos na realização de seu labor, e acolheu os termos do laudo pericial apresentado; que tampouco foi deferido o pleito autoral de intimação da autarquia ré para apresentação de todos os laudos médicos referentes às perícias administrativas. No mais, sustentou que o segurado exerce atividade manual e, em razão das sequelas do acidente, fica claro que necessita de esforço maior para continuar desenvolvendo seu mister habitual, desencadeando um processo compensatório; que, ainda que a redução seja pequena, ficou configurada sua incapacidade e, havendo restrição funcional, obrigado está o segurador a repará-la; que o laudo pericial apresenta contradição entre o exame clínico e as conclusões; que o magistrado não está adstrito às conclusões do expert, havendo elementos para o reconhecimento do direito autoral. Requer o reconhecimento da procedência do pedido ou, caso assim não se entenda, a anulação da sentença, por cerceamento de defesa, para que seja convertido o julgamento em diligência, determinando-se a perícia de local e a intimação da ré para apresentação de todos os laudos médicos referentes às perícias administrativas.

Contrarrazões às fls. 294/296 (indexador 294), pelo desprovimento do recurso ou, na eventualidade da chance de provimento, pela suspensão do feito, conforme determinação do Superior Tribunal de Justiça (Tema nº 862).

É o relatório.

VOTO

O recurso é tempestivo e adequado à impugnação pretendida, sendo o apelante beneficiário da gratuidade de justiça (indexador 33), satisfeitos, pois, os requisitos de admissibilidade em conformidade com o CPC/15.

O autor afirma na inicial que em 09/06/2017 sofreu acidente de trabalho no interior do estabelecimento comercial onde exerce a função de padeiro, ocasião em que teve o dedo médio da mão direita (dominante) prensado na máquina, o que resultou na amputação da falange distal; que permaneceu em benefício acidentário de 10/06/2017 a 30/10/2017, ocasião em que recebeu alta para retornar ao trabalho; que a ré deveria ter concedido o benefício do auxílio-acidente a partir de 1º de outubro de 2017, com base no disposto no artigo 86 da Lei nº 8.213/91.

A controvérsia recursal cinge-se a verificar se merece reparos a sentença que rejeitou o pleito autoral com fundamento no laudo pericial produzido, bem como a possibilidade de reconhecimento de cerceamento de defesa e anulação da sentença para que se determine a realização de perícia de local, bem como seja a ré intimada a apresentar todos os laudos médicos referentes às perícias administrativas.

O auxílio-acidente é benefício mensal de natureza indenizatória, concedido ao segurado, quando, após a consolidação das lesões decorrentes de acidente, venha a apresentar sequelas incapacitantes para o trabalho habitual, de cunho parcial e permanente, conforme previsto no artigo 6º da Lei 6367/76, atualmente disposto no art. 86, da Lei nº 8.213, de 1991, in verbis:

“Art. 6º O acidentado do trabalho que, após a consolidação das lesões resultantes do acidente, permanecer incapacitado para o exercício de atividade que exercia habitualmente, na época do acidente, mas não para o exercício de outra, fará jus, a partir da cessação do auxílio-doença, a auxílio-acidente. “

“Art. 86 - O auxílio-acidente será concedido, como indenização, ao segurado quando, após consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza, resultarem sequelas que impliquem redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia.”

O conceito de acidente de trabalho encontra-se definido no art. 19 da Lei nº 8.213, de 1991, in verbis:

“Art. 19 - Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho”.

esta lesão tenha decorrido ou tenha sido agravada pelo exercício do trabalho, e que, uma vez consolidada tal lesão, dela tenha decorrido incapacidade laborativa, redução de tal capacidade ou maior esforço para o exercício do trabalho.

Releva observar que, em matéria previdenciária, deve-se levar em consideração a insuficiência técnica do segurado de determinar, no instante da propositura da ação, a extensão das lesões de que é portador, as quais somente podem ser analisadas apropriadamente após a realização da perícia pertinente.

Da perícia realizada nestes autos (indexador 111), foram extraídas as seguintes conclusões:

“De acordo com o exame clínico, os documentos acostados aos autos, a história da patologia e os exames apresentados, concluímos que o periciando apresentou lesão que guarda nexo com a mecânica do acidente de trabalho narrado na inicial. Esta lesão foi adequadamente tratada e encontra-se curada, sem deixar sequelas incapacitantes. Atualmente a biomecânica da mão do periciando é compatível com a sua função” (fl. 113).

Em resposta ao quesito 5 da ré, que versou a respeito da existência de perda anatômica e sobre a manutenção da força muscular, o expert esclareceu que houve “perda da falange distal do dedo médio da mão direta” e que, todavia, “a função da mão está preservada”, tendo esclarecido, ainda, no quesito 6, que a mobilidade das articulações também estaria preservada, tendo concluído em resposta ao quesito nº 8 1 da ré, que “não há incapacidade para o trabalho ou atividades do cotidiano”.

Em seus esclarecimentos (indexador 170), o perito apontou que as atividades próprias da função do periciando foram discriminadas no index. 138, e que entendia despicienda a realização de vistoria in loco por especialista em medicina do trabalho.

Quanto à alegação de contradição entre as conclusões do laudo e as queixas apresentadas pelo segurado na ocasião da perícia (dormência no coto de amputação e dificuldade para assinar documentos e manusear a massa para determinadas finalidades do seu trabalho), esclareceu que as queixas trazidas pelo segurado não de impõem aos resultados do exame clínico, senão vejamos:

1 “8. Face à sequela, ou doença, o (a) periciado (a) está: a) com sua capacidade laborativa reduzida,

porém não impedido de exercer a mesma atividade; b) impedido de exercer a mesma atividade, mas

não para outra; c) inválido para o exercício de qualquer atividade?”

“(...) o raciocínio médico leva em consideração o que se vê (sinais clínicos e exames) e o que se ouve (sintomas, queixas, lamentos). E estes devem se relacionar de uma forma lógica e coerente entre si, para serem valorizados. Assim, mais importante do que as queixas do examinando, é a relação que se observa entre aquilo que se vê e o que se ouve. Só assim podemos construir um diagnóstico o mais preciso possível, diferenciando as doenças das “doenças” e os doentes dos que se dizem ou se acham doentes. (...)”.

Refiram-se, ainda, as respostas do perito aos quesitos suplementares formulados pela parte autora em sua impugnação ao laudo pericial:

“(...) 3) A sequela acidentária do autor, implica em maior emprego de energia para o trabalho que habitualmente exercia? Justifique a resposta, descrevendo os elementos nos quais se baseou a conclusão.

Conforme o que se observou no exame realizado, não. Também conforme informado no laudo, a biomecânica da mão do periciando está mantida para o tipo de atividade que exerce. A conclusão seria outra, caso exercesse atividade manual especializada, e.g., artesão, artista plástico, digitador, músico, etc.

4) Qual o comprometimento sofrido pelo periciado dos movimentos de preensão e pinça, em sua rotina de trabalho e hábitos diários (atinentes ou não em sua vida laboral)? Justifique a resposta, descrevendo os elementos nos quais se baseou a conclusão.

Nenhum comprometimento. Vide as figuras ilustrativas que fazem parte do laudo, assim como as fotos juntadas ao final do laudo.

5) Ao retornar ao emprego após o acidente, o autor mantém a mesma capacidade técnica e destreza que os outros padeiros, ou demanda de maior esforço e energia que os outros profissionais, para realização das tarefas diárias? Justifique a resposta?

A resposta é positiva, tanto que voltou a exercer a mesma função, como o próprio informou. (...)”.

Nesse contexto, colhe-se dos autos que o autor não perdeu a sua capacidade de trabalho em razão da lesão sofrida, e que esta, mesmo irreversível, não teria implicado em incapacidade laborativa em qualquer grau, redução de tal capacidade ou mesmo na necessidade de emprego de maior esforço para o exercício do trabalho, requisitos legais exigidos para concessão da indenização acidentária, sendo certo que a prova pericial produzida se revelou, de fato, suficiente a fundamentar o juízo de improcedência.

Isso porque, ainda, que embora o julgador não esteja adstrito ao laudo pericial, na hipótese, a parte autora não trouxe elementos mínimos suficientes para afastar as conclusões apontadas pelo expert.

Note-se, ainda, que o juiz é o destinatário das provas, cabendo-lhe decidir quais as necessárias à instrução do processo e à formação de seu convencimento, cabendo, ainda, valorar as provas produzidas.

Cabe destacar que a juntada dos laudos médicos realizados administrativamente não revelaria capaz de modificar a sorte do julgado, uma vez que o benefício ora pleiteado pelo autor foi negado administrativamente, tendo sido o segurado considerado apto para o trabalho, e tampouco se vislumbra, ante as assertivas conclusões trazidas pelo expert, que a reavaliação do segurado no seu ambiente de trabalho pudesse implicar em modificação das conclusões exaradas pelo perito em seu laudo.

Considerando, portanto, que restou demonstrado que o autor não perdeu a sua capacidade de trabalho em razão da lesão decorrente do acidente de trabalho, e inexiste indicativo de que necessite empregar esforço adicional para o exercício do labor, forçoso reconhecer a inexistência dos requisitos legais exigidos para concessão da indenização acidentária, não fazendo jus o recorrente ao recebimento do benefício pleiteado.

Sobre o tema, refira-se precedente desta Corte:

0026473-34.2011.8.19.0066 – APELAÇÃO. Des (a). CARLOS SANTOS DE OLIVEIRA - Julgamento: 10/09/2020 - VIGÉSIMA SEGUNDA CÂMARA CÍVEL.

APELAÇÃO CÍVEL. AUXÍLIO DOENÇA ACIDENTÁRIO. RESTABELECIMENTO DO BENEFÍCIO. PERÍCIA CONCLUSIVA. MANUTENÇÃO DA CAPACIDADE LABORAIVA. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. IRRESIGNAÇÃO AUTORAL. 1. A narrativa da petição inicial se refere a episódio de acidente de trabalho em que o autor, metalúrgico, serrou parte do dedo da mão esquerda. Assim, diante da alegada perda da capacidade laboral, pugnou pela concessão de benefício acidentário. 2. Nada obstante reconhecida a perda de força na pegada, o laudo pericial realizado por profissional médico especializado em ortopedia foi conclusivo quanto à ausência de redução da capacidade laboral específica do autor. 3. Para concessão do auxílio-acidente, exige-se a existência de lesão decorrente de acidente do trabalho que implique redução da capacidade para o labor habitualmente exercido. Tese fixada pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo (REsp. 1.109.591/SC). DESPROVIMENTO DO RECURSO.

Isto posto, VOTO pelo DESPROVIMENTO do recurso, mantida a sentença in totum. Outrossim, majoram-se os honorários advocatícios para 12% sobre o valor dado à causa, observando-se a gratuidade de justiça da qual o autor é beneficiário.

Rio de Janeiro, na data da sessão de julgamento.

DES. SANDRA SANTARÉM CARDINALI

RELATORA

Disponível em: https://tj-rj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/1207837864/apelacao-apl-641432920198190001/inteiro-teor-1207838270